A formação dos espaços urbano e rural do Brasil na perspectiva de Josué de Castro, Victor Nunes Leal e Abdias do Nascimento
A formação histórica do Brasil é marcada por profundas desigualdades na configuração de seus espaços urbano e rural. Para compreender essa realidade, é fundamental recorrer a pensadores que, em diferentes áreas, dedicaram suas vidas a desvendar os mecanismos de exclusão e poder que moldaram o país. Entre eles, destacam-se Josué de Castro, Victor Nunes Leal e Abdias do Nascimento. Embora oriundos de trajetórias distintas, suas análises convergem ao evidenciar como estruturas de dominação econômica, política e racial marcaram os rumos do desenvolvimento brasileiro, especialmente na relação entre cidade e campo.
Josué de Castro foi pioneiro ao associar a questão da fome às desigualdades socioespaciais do Brasil. Em sua obra clássica Geografia da Fome (1946), ele demonstrou que a fome não era um fenômeno natural, mas o resultado direto da má distribuição de terras, da concentração fundiária e da ausência de políticas públicas que garantissem o acesso universal a alimentos. Ao cartografar as diferentes regiões do país, Josué evidenciou como o espaço rural brasileiro foi historicamente organizado para exportação de produtos agrícolas, em detrimento da subsistência da população. Essa lógica de exploração, profundamente enraizada no latifúndio, criou um campo excludente e, ao mesmo tempo, empurrou grandes massas para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida. Contudo, as cidades, longe de representarem um espaço de inclusão, tornaram-se polos de reprodução das desigualdades. Para Josué, a urbanização acelerada sem planejamento agravou os contrastes sociais, criando cinturões de miséria em torno das metrópoles.
Já Victor Nunes Leal, em sua obra Coronelismo, Enxada e Voto (1949), lançou luz sobre as engrenagens políticas que sustentaram esse modelo desigual. Leal analisou o chamado coronelismo, sistema em que chefes locais — geralmente grandes proprietários de terra — exerciam poder político e social sobre comunidades rurais, controlando o acesso a recursos, favores e até mesmo ao direito ao voto. Esse arranjo político reforçava a dependência dos trabalhadores rurais e limitava a autonomia das populações do campo, perpetuando a concentração de poder. Para Leal, o coronelismo não apenas moldou as relações rurais, mas também projetou sua influência sobre as cidades. A urbanização no Brasil, longe de romper com esse modelo, foi marcada pela presença de velhas oligarquias, que souberam se adaptar ao novo contexto, mantendo sua influência tanto em políticas locais quanto nacionais. Assim, o espaço urbano herdou as marcas do rural oligárquico, reproduzindo desigualdades e clientelismos em novas roupagens.
Abdias do Nascimento, por sua vez, trouxe a dimensão racial para esse debate, algo que frequentemente foi negligenciado por análises tradicionais da formação social brasileira. Militante, intelectual e político, Abdias dedicou sua trajetória à denúncia do racismo estrutural e da marginalização da população negra no Brasil. Para ele, a formação dos espaços urbanos e rurais não poderia ser compreendida sem considerar o legado da escravidão e as formas modernas de exclusão racial. Nas cidades, os negros foram empurrados para periferias e favelas, privados de acesso pleno a educação, saúde e trabalho digno. No campo, a abolição da escravidão, sem políticas de integração social, manteve descendentes de africanos em situação de subordinação, seja como trabalhadores informais, meeiros ou posseiros, sem acesso à terra. Abdias também denunciava o mito da democracia racial, argumentando que a segregação espacial e social revelava a persistência do racismo como elemento estruturante da sociedade brasileira.
A articulação dessas três perspectivas permite compreender a complexidade da formação dos espaços urbano e rural no Brasil. Josué de Castro mostra que a questão da fome está intrinsecamente ligada à forma como o espaço rural foi estruturado em favor do grande capital e em detrimento da soberania alimentar. Victor Nunes Leal evidencia como o coronelismo consolidou uma lógica política que subordinava tanto campo quanto cidade às oligarquias locais, perpetuando desigualdades de poder. Abdias do Nascimento, por sua vez, introduz a dimensão racial como chave indispensável para entender a exclusão espacial e social que atravessa tanto o rural quanto o urbano.
Assim, quando observamos o Brasil contemporâneo, marcado por metrópoles com periferias vastas e um campo ainda concentrado em latifúndios, percebemos como as análises desses autores permanecem atuais. O êxodo rural, iniciado com a modernização da agricultura e a mecanização que expulsou trabalhadores do campo, levou milhões às cidades, onde encontraram novas formas de marginalização. As periferias urbanas são, em grande medida, expressão das mesmas estruturas que Josué, Leal e Abdias denunciaram: exclusão alimentar, poder oligárquico e racismo estrutural.
Em síntese, a formação dos espaços urbano e rural no Brasil não pode ser entendida de forma isolada, como se fossem esferas independentes. Ao contrário, cidade e campo estão profundamente conectados por dinâmicas de exploração econômica, dominação política e exclusão racial. Josué de Castro, Victor Nunes Leal e Abdias do Nascimento, cada um em seu campo, revelam que o espaço brasileiro foi constituído como território de privilégios para poucos e de exclusões para muitos. Suas obras nos convidam a pensar alternativas, seja pela democratização do acesso à terra e aos alimentos, pela superação das práticas clientelistas, ou pelo combate radical ao racismo estrutural. Entender suas contribuições é, portanto, essencial para refletir sobre os caminhos de transformação social capazes de tornar o espaço urbano e rural brasileiros mais justos e inclusivos.
Questões para reflexão:
- Segundo Josué de Castro, por que a fome no Brasil não é um fenômeno natural, mas social?
- Como o coronelismo, descrito por Victor Nunes Leal, manteve a dependência dos trabalhadores rurais?
- De que forma Abdias do Nascimento relaciona a segregação racial à ocupação de espaços urbanos e rurais?
- Explique como as análises dos três autores mostram a ligação entre campo e cidade.
- Aponte dois exemplos atuais (notícias, experiências locais, observações cotidianas) que revelam permanências desses problemas.

