O que é América Latina?
A América Latina reúne países da América do Sul, Central e parte da América do Norte (como o México) que foram colonizados principalmente por Espanha, Portugal e França. O termo é polêmico: surgiu no século XIX com interesses da França em se opor à influência anglo-saxônica dos Estados Unidos. Alguns criticam a expressão porque ela não inclui bem indígenas e afrodescendentes, mas outros defendem que ela ajuda a construir uma identidade cultural comum contra os efeitos da colonização e do imperialismo.
Independências na América Latina
No final do século XVIII e início do XIX, crises na Europa (Revolução Francesa, Iluminismo e invasões napoleônicas) e insatisfações nas colônias geraram movimentos de independência.
- Revolução Haitiana (1804): Primeiro país latino-americano a se tornar independente. Colônia francesa de São Domingos (Haiti), com grande população escravizada. Liderados por Toussaint L'Ouverture e Jean-Jacques Dessalines, os escravizados rebelaram-se, expulsaram os colonizadores brancos e proclamaram a independência. A revolução foi violenta e inspirou medo nas elites de outras colônias.
- Haitianismo: Termo usado para descrever o medo das elites brancas de que revoltas semelhantes de escravizados acontecessem em seus territórios. Isso fez com que muitos processos de independência fossem controlados pelas elites, que queriam manter o poder.
Principais datas de independência:
- 1804: Haiti
- 1811: Paraguai
- 1816: Argentina
- 1818: Chile
- 1819: Venezuela e Colômbia
- 1821: México
- 1822: Equador e Brasil
- 1824: Peru
- 1825: Bolívia
- 1828: Uruguai
- 1898: Cuba (última)
Grã-Colômbia e Pan-americanismo: Simón Bolívar e José de San Martín foram grandes líderes. Bolívar uniu temporariamente Colômbia, Venezuela, Panamá e Equador na Grã-Colômbia (dissolvida em 1831). Ele defendia o **Pan-americanismo** (ou Bolivarismo): uma confederação de países independentes para defender-se da Europa, promover igualdade e paz.
Independência de Cuba: Demorou mais porque a elite cubana tinha autonomia comercial com os EUA. As guerras (1868-1898) terminaram com intervenção americana. Em 1898, os EUA declararam guerra à Espanha e, após a vitória, controlaram Cuba, mostrando o imperialismo estadunidense.
Fim do Período Colonial no Brasil
Conjuração Mineira (1789): Em Minas Gerais, intelectuais e mineradores, influenciados pelo Iluminismo, revoltaram-se contra os altos impostos portugueses (como o quinto real e a derrama). Queriam uma república. O plano foi descoberto; Tiradentes foi o único executado. Sua imagem heroica (barba e cabelos longos, parecendo Jesus) foi construída depois, na República, para simbolizar luta contra Portugal.
Conjuração Baiana (1798): Também chamada Revolta dos Alfaiates ou dos Búzios. Na Bahia, escravizados, libertos e pobres lutaram por fim da escravidão, melhores condições de vida, aumento de salário e república. Panfletos chamavam o povo à liberdade. O movimento foi violentamente reprimido; apenas líderes negros foram executados.
Transferência da Família Real (1808): Fugindo de Napoleão, D. João VI veio para o Brasil. O Rio de Janeiro virou capital. Em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. D. João VI tornou-se rei em 1818.
Revolução Pernambucana (1817): Elite pernambucana revoltou-se contra impostos e crise econômica. Proclamaram uma república liberal, mas sem abolir a escravidão. Durou pouco e foi sufocada.
Independência e Primeiro Reinado (1822-1831)
D. João VI voltou a Portugal em 1821 após a Revolução do Porto. Seu filho, D. Pedro, ficou e, pressionado pelas elites brasileiras, proclamou a Independência em 7 de setembro de 1822 (“Grito do Ipiranga”). O Brasil virou Império, com D. Pedro I como imperador.
Houve resistências portuguesas na Bahia, Piauí, Maranhão etc. Na Batalha do Jenipapo (Piauí, 1823), brasileiros venceram após luta dura. Na Bahia, a independência foi consolidada em 2 de julho de 1823. Mulheres negras como Maria Felipa de Oliveira (marisqueira, capoeirista) tiveram papel importante.
Constituição de 1824: Outorgada por D. Pedro I. Criou quatro poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderador (que dava ao imperador poder de interferir nos outros). Só homens ricos e acima de 25 anos votavam. A escravidão foi mantida.
Confederação do Equador (1824): Em Pernambuco, liberais queriam mais autonomia das províncias. Proclamaram uma república no Nordeste. D. Pedro I reprimiu duramente, executando Frei Caneca.
D. Pedro I abdicou em 1831 e voltou a Portugal.
Período Regencial (1831-1840)
Pedro II tinha apenas 5 anos. Regentes governaram. Foi um período de muitas revoltas:
- Cabanagem (Pará e Amazonas)
- Balaiada (Maranhão)
- Levante dos Malês (Bahia – escravizados muçulmanos)
- Sabinada (Bahia)
- Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul – durou 10 anos)
Segundo Reinado (1840-1889)
Em 1840, o Golpe da Maioridade antecipou a coroação de D. Pedro II (com 14 anos). Ele governou até 1889, fortalecendo o Poder Moderador.
Havia disputa entre Partido Conservador (elite, centralizadores) e Partido Liberal (mais autonomia). Liberais se revoltaram em 1842 (SP e MG) e na **Revolução Praieira** (PE, 1848-1850), exigindo voto universal e fim do Poder Moderador.
Manutenção da escravidão: O Brasil foi o último do continente a abolir (1888). O Cais do Valongo (RJ) recebeu quase 1 milhão de africanos escravizados. Suas ruínas hoje são Patrimônio da UNESCO e servem para lembrar o horror da escravidão.
Guerra do Paraguai (1864-1870): Brasil, Argentina e Uruguai (Tríplice Aliança) contra o Paraguai. Causas: disputas territoriais, navegação no Prata e modelos econômicos diferentes. O Paraguai sofreu enormes perdas (60-69% da população).
Movimento Abolicionista: Pressionou o fim da escravidão. Destaques: Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar). Escravizados resistiam com fugas, quilombos e sabotagens. Leis como Ventre Livre (1871) e Áurea (1888) foram conquistas do movimento.
Projetos dos irmãos Rebouças: André e Antônio, engenheiros negros baianos, construíram obras importantes (Docas da Alfândega, Armazém D. Pedro II, Estrada da Graciosa, Ferrovia Paranaguá-Curitiba) usando mão de obra livre, coerente com suas ideias abolicionistas.
Críticas ao Império: Charges da Revista Illustrada (Angelo Agostini) mostravam D. Pedro II indiferente aos problemas do país.
Conclusão
O período marca a transição do colonialismo para Estados independentes. No Brasil, a independência foi negociada pelas elites, mantendo a monarquia, a escravidão por décadas e a desigualdade. As lutas populares, revoltas e o movimento abolicionista foram fundamentais para avanços. O legado inclui debates sobre identidade latino-americana, cidadania e memória da escravidão que ainda hoje são importantes.